AS BOAS E AS MÁS NOTÍCIAS: UMA LEITURA CRÍTICA DE “POR QUE A DEMOCRACIA BRASILEIRA NÃO MORREU”, DE MARCUS MELO E CARLOS PEREIRA

Autores

  • Diego Werneck Arguelhes Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa, São Paulo.
  • Felipe Recondo Centro dePesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Palavras-chave:

Supremo Tribunal Federal, Erosão Democrática, Democracia, Presidencialismo

Resumo

Em seu livro "Por que a democracia brasileira não morreu?", os cientistas políticos Marcus Melo e Carlos Pereira  argumentam que o sistema de presidencialismo multipartidário, caracterizado por fragmentação partidária e múltiplos vetos institucionais, foi decisivo para impedir que Bolsonaro desfigurasse o regime democrático. Esse sistema impôs barreiras à implementação de reformas potencialmente autoritárias, mesmo quando o presidente tentou dominar instituições como o STF e o TSE ou neutralizar controles eleitorais à sua permanência no poder. Neste ensaio, ao mesmo tempo em que reconhecemos a força do argumento, procuramos compreendê-la dentro dos seus próprios limitesmas propõe uma análise mais ampla das ameaças à democracia, dividindo-as em três dimensões: (1) processos de autocratização informal, com deterioração da qualidade democrática; (2) processos de backsliding institucional, com uso de mecanismos legais para enfraquecer o estado de direito e eventualmente mudar a natureza do regime; e (3) ameaça de golpe clássico, como o autogolpe frustrado articulado por Jair Bolsonaro. Argumentamos que, embora o presidencialismo multipartidário teria sido eficaz contra o backsliding, é uma explicação bem menos relevante quanto às outras duas dimensões. Como observado em estudos recentes desse período, a desidratação de instituições de controle, como a Procuradoria-Geral da República, e o uso de medidas infralegais pelo Executivo não exigiram apoio legislativo, escapando das barreiras do sistema multipartidário. Além disso, o comportamento do STF, embora decisivo em certos momentos, não foi constante, e sua atuação foi condicionada por fatores políticos e conjunturais, como o apoio ou oposição do Congresso. Como ilustrado pelo episódio da “PEC Kamikaze”, o próprio Congresso pode colaborar com medidas populistas e potencialmente autoritárias, mesmo em um sistema fragmentadom - e a demora do STF em declarar sua inconstitucionalidade revela os limites da atuação judicial em contextos de convergência entre Executivo e Legislativo. Quanto à ameaça de golpe clássico, contestamos a ideia de que ela não teria sido crível. Documentos e depoimentos revelados após o fim do governo indicam que houve planejamento real para manter Bolsonaro no poder, inclusive com tentativas de mobilizar as Forças Armadas, e a sociedade civil reagiu com vigor, demonstrando que a ameaça foi levada a sério por diversos atores. O presidencialismo multipartidário não teria sido capaz de impedir um golpe militar, caso houvesse adesão das Forças Armadas. Por fim, o ensaio conclui que, embora o sistema político brasileiro tenha resistido a uma forma específica de erosão democrática, os últimos anos contém uma má notícia: ele não é à prova de todas as ameaças. O livro de Melo e Pereira oferece uma contribuição valiosa, mas, diante de um segundo governo Bolsonaro, o desfecho poderia ter sido diferente, apesar da relevância do presidencialismo multipartidário para a contenção de ameaças autoritárias na dimensão de backsliding.

Biografia do Autor

Diego Werneck Arguelhes, Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa, São Paulo.

Professor Associado do Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa, São Paulo. Mestre em Direito Público pela UERJ e Doutor em Direito pela Universidade Yale (EUA). Pesquisador Sênior do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).

Felipe Recondo, Centro dePesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Graduado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB). Pesquisador associado do Centro dePesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas (FGV), e da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília. Autor de Tanques e Togas: o Supremo e a Ditadura Militar; Os Onze: o STF, seus bastidores e suas crises; e O Tribunal: como o Supremo se uniu ante a ameaça autoritária. São Paulo: Companhia das Letras

Referências

AGÊNCIA SENADO. Pacheco devolve MP que dificultava retirada de conteúdo da internet. Senado Notícias, 14 set. 2021a. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/09/14/pacheco-devolve-mp-que-dificultava-retirada-de-conteudo-da-internet>.

AGÊNCIA SENADO. Pacheco rejeita pedido de Bolsonaro por impeachment de Moraes. Senado Notícias, 25 ago. 2021b. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/08/25/pacheco-rejeita-pedido-de-bolsonaro-por-impeachment-de-moraes>.

ARGUELHES, Diego Werneck. Resiliência da Constituição ou do Supremo? In: GLEZER, Rubens; BARBOSA, Ana Laura Pereira (org.). Resiliência e deslealdade constitucional: uma década de crise. Contracorrente, 2023.

BERMEO, Nancy. On Democratic Backsliding. Journal of Democracy, v. 27, n. 1, p. 5-19, jan. 2016. Disponível em: <https://www.journalofdemocracy.org/articles/on-democratic-backsliding/>.

BULLA, Beatriz; SCHELLER, Fernando. Empresários e banqueiros aderem a nova carta aberta de defesa da democracia. Estado de S. Paulo, 25 jul. 2022. Disponível em: <https://www.estadao.com.br/politica/empresarios-divulgam-nesta-terca-feira-carta-aberta-de-apoio-a-democracia/>.

CÂMARA, Heloisa Fernandes; ALMEIDA, Ana Paula Cardoso. Estratégias de erosão constitucional no Brasil: bolsonarismo e a desconstituição por meios legais e administrativos. Revista Direito e Práxis, v. 14, n. 4, p. 2432–2462, 2023. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/2179-8966/2022/66510>.

CRUZ, Tatiana Paula da. Trusting the Courts: Exploring the Link Between Populism, Trust in Courts, and Democracy in Brazil. Journal of Politics in Latin America, v. 0, n. 0, 2024. Disponível em: <https://doi.org/10.1177/1866802X241295784>.

DA ROS, Luciano; TAYLOR, Matthew M. “Bolsonaro and the Judiciary: Between Accommodation and Confrontation.” In: Birle, P.; Speck, B. (eds.). How endangered is democracy? Berlin: Ibero-Amerikanisches Institut (IAI), 2022.

DIXON, Rosalind. LANDAU, David. Abusive Constitutional Borrowing: Legal Globalization and the Subversion of Liberal Democracy. Oxford University Press, 2021.

GAMBOA, Laura. Resisting Backsliding: Opposition Strategies against the Erosion of Democracy. Cambridge University Press, 2022.

GINSBURG, Tom. Judicial Review in New Democracies: Constitutional Courts in East Asia. Cambridge University Press, 2003.

GINSBURG, Tom; HUQ, Aziz Z. How to Save a Constitutional Democracy. The University of Chicago Press, 2018; Nancy Bermeo. On democratic backsliding. Journal of Democracy, v. 27, n. 1, jan. 2016.

HOLGADO, Benjamin Garcia; URRIBARRI, Raúl Sanchez. Court-packing and democratic decay: A necessary relationship? Global Constitutionalism, v. 12, n. 2, 2023.

KELLER, Clara Iglesias; ARGUELHES, Diego Werneck. Facing disinformation in democratic backsliding: the role of courts in Brazil. VRÜ Verfassung in Recht und Übersee, v. 57, n. 2, pp. 187-209, 2024. Disponível em: <https://doi.org/10.5771/0506-7286-2024-2-187%0A>.

LUPION, Bruno. Em reunião com embaixadores, Bolsonaro questiona urnas e TSE. DW, 19 jul. 2022. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/em-reuni%C3%A3o-com-embaixadores-bolsonaro-questiona-urnas-e-tse/a-62518117>.

MARRA, Renan. Mourão defende mudanças no STF para limitar decisões, mudar composição e tempo de mandato. Folha de S. Paulo, 7 out. 2022. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/10/mourao-defende-mudancas-no-stf-para-limitar-decisoes-mudar-composicao-e-tempo-de-mandato.shtml>.

MELO, Marcus; PEREIRA, Carlos. Por que a democracia brasileira não morreu? Companhia das Letras, 2024.

MELO, Marcus. “A democracia não sobreviveu por um triz?”. Folha de São Paulo, 28/09/2025.

NOVAES, Lucas M.; ARGUELHES, Diego Werneck. Bolsonaro’s Botched Coup Attempt Exposed Political Fault Lines in the Brazilian Democracy. Revista de Ciência Política. (Santiago), Santiago, v. 44, n. 2, p. 187-217, Aug. 2024. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.4067/s0718-090x2024005000111>.

PEDUZZI, Pedro; RODRIGUES, Alex. Em vídeo, Bolsonaro orientou ministros a questionar urnas e Judiciário. Agência Brasil, 9 fev. 2024. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2024-02/em-video-bolsonaro-orientou-ministros-questionar-urnas-e-judiciario>.

PEREIRA, Carlos. STF terá a chance de desemparedar o Brasil ao julgar a ‘PEC Kamikaze’ inconstitucional. Estado de S. Paulo, 6 jul. 2022. Disponível em: <https://www.estadao.com.br/politica/carlos-pereira/stf-tera-a-chance-de-desemparedar-o-brasil-ao-julgar-a-pec-kamikaze-inconstitucional/>.

RODRIGUES, Larissa; BARCELLOS, Renato. PEC do voto impresso é rejeitada pelo plenário da Câmara dos Deputados. CNN Brasil, 10 ago. 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pec-do-voto-impresso-e-rejeitada-em-1-turno-na-camara/>.

RECONDO, Felipe; WEBER, Luiz. O tribunal: Como o Supremo se uniu ante a ameaça autoritária. Companhia das Letras, 2023.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Ação Direta de Inconstitucionalidade 7.212 Distrito Federal. Relator: Min. André Mendonça. Redator do acórdão: Min. Gilmar Mendes. Julgado em: 15 dez. 2022.

VIEIRA, Oscar Vilhena; GLEZER, Rubens; BARBOSA, Ana Laura Pereira. Supremocracia e Infralegalismo Autoritário: o Comportamento do Supremo Tribunal Federal durante o Governo Bolsonaro. Novos estudos CEBRAP, v. 41, n. 3, p. 591–605, set. 2022. Disponível em: <https://doi.org/10.25091/501013300202200030008>.

V-DEM INSTITUTE. Autocratization Turns Viral - Democracy Report 2021. V-DEM Institute, 2021. Disponível em: <https://v-dem.net/documents/12/dr_2021.pdf>.

V-DEM INSTITUTE. Defiance in the Face of Autocratization – Democracy Report 2023. V-DEM Institute, 2023. Disponível em: <https://v-dem.net/documents/29/V-dem_democracyreport2023_lowres.pdf>

Publicado

2026-02-05

Como Citar

Werneck Arguelhes, D., & Recondo Freire, F. (2026). AS BOAS E AS MÁS NOTÍCIAS: UMA LEITURA CRÍTICA DE “POR QUE A DEMOCRACIA BRASILEIRA NÃO MORREU”, DE MARCUS MELO E CARLOS PEREIRA. Revista Brasileira De Direitos Fundamentais & Justiça, 24(53). Recuperado de https://dfj.emnuvens.com.br/dfj/article/view/1742